A economia do rádio

De acordo com o Projeto Inter-Meios, o rádio brasileiro recebeu mais de 420 milhões de reais em investimento publicitário entre os meses de maio de 2009 e 2010, significando um acréscimo de 18,56% em relação ao ano anterior. Todas as regiões do país registraram crescimento, com destaque para Minas Gerais e Espírito Santo que, juntos, tiveram a maior expansão no período (+32,09%). Esses dados comprovam o grande momento vivido pela mídia rádio no Brasil, mas, é bom lembrar, não consideram toda a cadeia produtiva que gira em torno desta indústria e que também se beneficia diretamente desses resultados positivos.

O Brasil conta com 4.003 emissoras de rádio, sendo 2.295 FMs e 1.709 AMs. Em tempo: segundo Hilton Alexandre, presidente da AERJ (Associação das Emissoras de Rádio e Televisão do Estado do Rio de Janeiro), somente as estações em amplitude modulada empregam cerca de 80 mil pessoas diretamente e mais de 170 mil indiretamente. De acordo com o Mídia Dados 2010, 53,5 milhões de domicílios no Brasil (91,4% do total) contam com pelo menos um aparelho de rádio. Mesmo a televisão possuindo alcance um pouco maior (55,4 milhões de domicílios, 94,7% do total), o rádio tem sua força amplificada junto às comunidades graças ao grande espaço que dedica para a informação e o entretenimento com sotaque local. Mesmo as redes nacionais, que tem modelos de negócio cada vez mais bem-sucedidos, preservam espaços importantes das suas grades para o conteúdo local, respeitando a vocação dessa mídia e atendendo às demandas artisticas, jornalisticas e comerciais de todas as regiões em que atuam.

Com todo esse poder, juntamente com as facilidades tecnológicas surgidas nos últimos anos, nada mais natural que outras frentes de negócio nascessem além do dial. Somente em 2009, o Sistema Globo de Rádio, por exemplo, teve mais de 6 milhões de ouvintes nos seus canais na Internet e no SMS (mensagem de texto pelo celular), 240 mil espectadores nos shows promovidos pelas suas emissoras e meio milhão de participantes por mês nos eventos de rua e promoções. Tudo isso gera novos empregos diretos e indiretos e amplia o valor das emissoras que — como eu já havia dito no artigo “O futuro do rádio” — reforçam sua vocação de vender mais do que tempo, mas sim relacionamento, seja entre pessoas, seja entre pessoas e empresas, tudo isso mediado pelas marcas das próprias estações.

A marca de uma rádio fornece as balizas para a produção e distribuição
do seu conteúdo de forma coerente e eficiente inclusive para outras mídias

Ao traçarmos este cenário econômico (e, por que não dizer, social) que gira em torno do rádio, não podemos esquecer de um ponto que, se não for bem trabalhado, pode invalidar todo o esforço de expansão e modernização dessa mídia: pesquisa — justamente a maior ferramenta de venda para as emissoras. É muito difícil que prévias mensais e índices consolidados trimestrais de audiência possam representar fielmente todo o dinamismo presente tanto na produção e quanto no consumo de rádio. Apenas a título de comparação, a TV dispõe, nos maiores mercados nacionais, de prévias a cada minuto e consolidados diários.

Outro problema está relacionado com a falta de informação adequada sobre o consumo através dos rádios de carro (que, em diversos países, chega a responder por mais da metade da audiência total) e dos outros diversos aparelhos receptores disponíveis no mercado.

Nesse cenário, as redes sociais ampliam ainda mais a sua relevância, não apenas por serem eficazes meios de difusão de conteúdos e marcas, mas também por fornecerem dados mais precisos, rápidos e relevantes sobre hábitos comportamentais do público das emissoras. Trata-se de um interessante termômetro tanto para movimentar um programa ao vivo quanto para medir a reputação de uma estação junto à comunidade na qual está inserida. Contudo, um problema no uso dessas redes sociais como fonte de informação de mercado ainda está no alcance da Internet, que é pequeno se comparado ao do rádio (segundo o Mídia Dados 2010, apenas 39% dos brasileiros podem acessar Internet em casa e 19% no trabalho).

De nada adianta a mídia rádio continuar se modernizando, ampliando suas fronteiras de atuação e renovando sua audiência (como já vem fazendo), se os métodos de monitoramento desses movimentos também não avançarem.

Apesar disso, a realidade já nos mostra claramente que o meio rádio movimenta muito mais do que os 420 milhões apontados pela Inter-Meios e emprega (direta e indiretamente) outras centenas de milhares de profissionais em todo o país, nos mais diversos setores da economia. Para muitas emissoras, seus novos negócios (eventos, SMS, licenciamentos e até shoppings virtuais) já representam parte considerável do faturamento total, numa demonstração da vitalidade do setor e da sua força em gerar resultados em todas as iniciativas que se envolve.

Vivemos num tempo em que o rádio está além do dial e o impacto social e econômico das suas atividades ultrapassa todas as fronteiras geográficas e tecnológicas.

~ por Fernando Morgado em 15/08/2010.

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