O programa mais antigo da TV brasileira
Com quase 60 anos, a televisão brasileira possui uma história marcada por muitas transformações. A cada nova temporada, muitos programas entram e saem do ar rapidamente, deixando (ou não) lembranças na memória dos telespectadores. Mas existem atrações que permanecem firmes no vídeo há várias décadas. Nasceram na era da imagem em preto-e-branco, viveram a chegada das cores e, hoje, se preparam para as novas tecnologias e o sinal digital.
Muitos nomes podem vir à cabeça quando pensamos em qual seria a atração mais longeva da TV brasileira. “Jornal Hoje”? 38 anos (21/4/1971). “Jornal Nacional”? Completa 40 anos neste ano (1/9/1969). “Programa Silvio Santos”? Quase! Começou em 1963 na TV Paulista.
O programa mais antigo da TV brasileira possui uma resistência que pode ser comparada, inclusive, à história do povo que ele retrata: “Mosaico”, atração dedicada à divulgação da cultura e dos eventos judaicos em São Paulo, entrou no ar em 16 de julho de 1961 na TV Excelsior.
Tudo começou ainda nos anos 1940 por iniciativa do imigrante alemão Siegfried Gotthilf, que veio para o Brasil em busca da paz. Em São Paulo, ele montou uma pequena oficina de consertos de aparelhos de rádio, que acabou se transformando numa loja completa de eletrodomésticos. Além disso, Siegfried assumiu o comando do programa “Hora Israelita” na Rádio Piratininga. A atração era obrigatória para todos os judeus que viviam na capital paulista e que gostariam de se manter informados sobre os últimos acontecimentos na comunidade: bodas, bar-mitzva, noivados, casamentos, notícias sobre refugiados, notas de nascimento e falecimento…
Pouco tempo depois, a atração mudou para o seu nome atual. Essa alteração aconteceu em decorrência de uma decisão do Governo Federal, ainda durante o Estado Novo, que proibiu a transmissão de programas étnicos. Por isso, um diretor da Rádio Tupi sugeriu: “Por que vocês não chamam de ‘Mosaico’, que vem de Moisés?”.
Mas esta não foi a única novidade na atração naquele tempo. O filho de Siegfried, Francisco Gotthilf, passou a participar ativamente da produção do programa e foi ele que liderou, no início dos anos 1960, o lançamento da versão televisiva do “Mosaico”.

O programa de estréia foi ao vivo, diretamente do palco do Teatro Cultura Artística (principal estúdio da TV Excelsior paulistana), e contou com a presença de diversas autoridades.

Em 27/1/63, o “Mosaico” transferiu-se para a TV Cultura, que na época ainda pertencia aos Diários Associados. Mais tarde, em 1967, foi a vez de chegar à TV Tupi paulista, onde ficou por quatro anos, até que em 23/5/1971 o programa finalmente entrou no ar pela TV Gazeta, onde permaneceu por mais de 25 anos e consolidou um público fidelíssimo.
Se manter qualquer programa na TV já é algo difícil, o caso do “Mosaico” mostra-se ainda mais especial por se tratar de uma produção independente (ou seja, que não conta com toda a estrutura de uma emissora de TV) e que não vive da doação de fiéis ou de instituições religiosas, pelo contrário: sua fonte de renda é proveniente única e exclusivamente de anunciantes comerciais como construtoras, bancos e lojas de departamentos (a maioria de propriedade de tracionais famílias judaicas).
Recentemente, toda essa história foi consolidada através do projeto “Senhor Mosaico: Francisco Gotthilf e o Programa Mosaico na TV” (produzido pela Narrativa Um e Videocom), que gerou um excelente livro e um belo documentário apresentado pelo ator Caco Ciocler, que reúne imagens raríssimas da história da TV e do povo judeu no Brasil, além de entrevistas e imagens de nomes como Álvaro de Moya, Mauro Zukerman, Ney Gonçalves Dias, Henry Sobel e Boris Casoy.
Boris, aliás, começou sua carreira na TV através do “Mosaico” e foram dele as palavras de encerramento do documentário e que – em forma de homenagem à Francisco Gotthilf, ao programa “Mosaico” e à história da TV brasielira – são reproduzidas abaixo:
“Preservar a memória do ‘Mosaico na TV’ é mais que uma necessidade: é preservar a memória de um programa que não morre feito por um povo que também não morre.”
Atualmente, o programa “Mosaico” vai ao ar todos os domingos, às 13h, na CNT. O livro e o DVD do projeto “Senhor Mosaico” podem ser adquiridos na Livraria Sêfer.
Veja abaixo alguns vídeos do programa “Mosaico”:
Trecho do documentário “Senhor Mosaico” (postado por ADComDanon)
Abertura e trecho do “Mosaico na TV” que apresenta Paulinho Resembaum misturando ritmo judaico com samba (postado por tropicashershow)

Magnifica e abençoada a história do MOSAICO NA TV… que perpetue nos lares judaicos e os simpatizantes pelos filhos de Abrahão, digno de registro em todos meios de comunicação… Shalom!!!
laercio oliveira de freitas disse isso em 28/06/2009 às 13:47