“Carnaval da Manchete”: a história completa
Saiba mais sobre a história das maiores coberturas do Carnaval já feitas pela Rede Manchete de Televisão

O Carnaval é maior festa popular do mundo. No sambódromo, nas ruas, nos bailes, nos concursos de fantasia, nas quadras e nos barracões, milhões de pessoas transformam esta data numa oportunidade de exporem sua beleza e alegria através dos sambas, das marchinhas e das roupas coloridas (ou até mesmo através da total ausência de roupas).
Nesse universo, a revista “Manchete” sempre se destacou pela sua ampla cobertura da folia de Momo. Com repórteres e fotógrafos espalhados por todo o Brasil, as edições especiais de Carnaval batiam recordes e mais recordes de tiragem e esgotavam-se em pouquíssimas horas, sempre trazendo belíssimas imagens dos desfiles, blocos e concursos, além de flagrantes ousados dos bailes mais concorridos do Rio de Janeiro.
Adolpho Bloch, dono da “Manchete”, sempre foi apaixonado por Carnaval. Desde quando chegou à Cidade Maravilhosa, em 1922 (aos 13 anos de idade), ele havia se encantado com a data e via nela a paz e a alegria que tanto faltava em sua terra natal, Jitomir: uma cidade russa castigada pela guerra e pela perseguição religiosa. O seu amor pelo Carnaval era tanto que ele acabou tornando-se compositor de marchinhas. “Rainha de Sabá” foi escrita por ele em parceria com Carlos Heitor Cony para o Carnaval de 1986.
É carnaval / Quero pular / Com as filhas da Rainha de Sabá
Ai Salomão! / Salomão! / Tinha mulheres à beça
Mas preferiu a Rainha de Sabá / Que era mulata
Ai Salomão! / Salomão!
Três mil anos depois / Tem mulatas na terrinha
Aguardando a sua vez / De mandar uma Brasinha…
Em 5 de junho de 1983, entrava no ar a Rede Manchete de Televisão, que, como Bloch gostava de definir, era sua “rotativa sem papel”. Sendo assim, nada mais natural que toda a paixão carnavalesca estampada pela principal revista semanal do grupo fosse também transferida para a sua mais nova iniciativa na mídia eletrônica.
1984 foi o primeiro ano da TV Manchete na passarela e não poderia ter havido momento melhor para essa estréia, afinal, aquele foi o ano da inauguração do novo Sambódromo na Av. Marquês de Sapucai. Projetada por Oscar Niemeyer, a obra vinha para dar mais conforto aos espectadores e maior espaço para as escolas de samba poderem desfilar.
Como forma de mostrar toda a grandiosidade dessa novidade, as ultra-modernas câmeras da Rede Manchete puderam atravessar a pista com total liberdade, mostrando bem de perto todas as alas, carros alegóricos e componentes. A vinheta daquele ano também fazia uma alusão à obra, mostrando uma gaivota voando que, quando pousava, transformava-se no monumento da Praça da Apoteose.
Além dos desfiles e da Apuração na quarta-feira de cinzas (transmitidos com total exclusividade), foram apresentados também diversos concursos de fantasias organizados pela dupla Belino Melo e Arnaldo Montel (especialmente o do Hotel Glória), debates entre jornalistas e presidentes das escolas de samba e os mais importantes e animados bailes. Também foi realizado o “Grande Troféu Manchete”, que premiou os melhores do Carnaval. Com toda essa programação, o slogan daquele ano anunciava: “Rede Manchete, Carnaval 84: 84 horas no ar”.

Anúncio do Carnaval 84 no “Jornal do Brasil” de 4/3/1984
Foi um momento histórico. O Carnaval acabou por fazer a emissora alcançar 70% de participação na audiência e uma enorme repercussão em todas as classes sociais, indo muito além do público AB (foco principal nos primeiros tempos do canal). Como reconheceu Adolpho Bloch numa entrevista dada dois anos mais tarde: “O fato é que a Manchete é uma emissora do povo”.
A partir de 1985, a Manchete Vídeo passaria a ser responsável pela produção e venda, pelo telefone, do compacto em VHS de toda a cobertura da emissora naquele ano. Esse produto acabou se tornando um fenômeno comercial dada a sua alta procura e espetacular margem de lucro. Nesse mesmo ano, o slogan utilizado na transmissão fazia referência não só ao nome da escola de samba Mangueira como também à liderança de audiência alcançada no Carnaval anterior: “Rede Manchete: a estação primeira também neste Carnaval”.
O público de todo o Brasil aguardava ansiosamente as coberturas de Carnaval da emissora, que, por isso, passou a usar a data para lançar também a sua grade do restante do ano. 1998, por exemplo, foi o “Carnaval da Copa”: uma forma de promover a transmissão do Mundial de Futebol que aconteceria naquele ano.
Outros nomes também foram adotados pela Manchete em suas coberturas: 1987 foi o “Carnaval das Estrelas”; em 1988, o “Carnaval é do Povo!”; depois foi a vez do “Carnaval Brasil”; e o nome “Carnaval da Manchete” foi usado a partir de 1994.

Acima: Carnaval 1987 e os neons com as marcas da Manchete e da Globo na entrada da Av. Marquês de Sapucaí
Além das transmissões ao vivo, diversos boletins (como “Esquentando os Tamborins”, “Feras do Carnaval” e “Barracão”) iam ao ar desde os últimos meses do ano anterior com o objetivo de informar os telespectadores, em primeira mão, sobre quais seriam as novidades que as escolas estavam preparando para o Carnaval que se aproximava. Esses programetes também eram importantes comercialmente, pois ampliavam a visibilidade dos anunciantes da emissora, que passavam a ter suas marcas vinculadas ao Carnaval num período muito maior do que somente durante a festa.
Nos dias de folia, o programa “Outros Carnavais” reaprentava os desfiles mais importantes já ocorridos na Marquês de Sapucaí, enquanto o belíssimo “Botequim da Manchete” abria suas portas durante os intervalos entre as escolas para receber sambistas, puxadores e belas passistas (a construção ficava ao lado da concentração do Sambódromo, na esquina entre as avenidas Marquês de Sapucaí e Presidente Vargas). O “Botequim da Manchete” também emprestou seu nome para um musical que reúnia os bambas nos últimos dias do Carnaval.
Não era só a festa carioca que tinha espaço na tela da Manchete. O Galo da Madrugada (o maior bloco de Carnaval do mundo), os trios elétricos de Salvador (que foram, inclusive, a principal atração na emissora em 1993, que naquele ano esteve de fora da Sapucaí devido à crise financeira vivida na época), os foliões nas ruas de Olinda e Ouro Preto, além do desfile das escolas de samba de São Paulo, no sambódromo do Anhembi, também eram destaque através de transmissões ao vivo ou de reportagens apresentadas no “Jornal da Manchete” (que seguia com menor duração e em horário especial), “Edição da Tarde” (que interrompia, na hora do almoço, os grandes compactos dos desfiles) e no “Jornal do Carnaval” (programa especial dedicado exclusivamente à cobertura da folia de Momo).
Durante os anos 1990, dois elementos fizeram muito sucesso nas vinhetas de Carnaval da Rede Manchete: os temas musicais e as mulheres.
Como forma de ser uma alternativa à belíssima Valéria Valença, a mulata “Globeleza”, a Manchete costumava ter uma loira como sua musa (que alguns chegaram a apelidar de “Mancheteza”). Além da loira, uma negra e uma morena também chegaram a ser colocadas para que o público, através do telefone, escolhesse a sua favorita e, com isso, concorresse a diversos automóveis 0km.
Depois de ficar de fora do Carnaval carioca em 1993, a Manchete cantava a sua volta à avenida com esses versos:
Pode preparar o seu confete (que que tem?)
Que nesse ano na avenida tem Manchete!
Neguinho da Beija-Flor interpretou um samba que também fez muito sucesso entre os telespectadores e caiu na boca do povo:
Aconteceu, virou Manchete, é isso aí!
A Manchete é a preferida da Sapucaí e do Anhembi
Aconteceu, virou Manchete, é isso aí!
A Manchete é a preferida da Sapucaí
E do Anhembi!
Deixa acontecer, virou Manchete!
Olha você na revista e na TV (ê, ê)
Deixa a Manchete levar
Sua imagem colorida
Pro povão admirar
Onde a Manchete vai eu vou (eu vou!)
Onde a Manchete tá eu tô (porque)
Sua cobertura é geral
Mostra um Carnaval muito legal pra você
Aconteceu, virou Manchete, é isso aí!
A Manchete é a preferida da Sapucaí e do Anhembi
Aconteceu, virou Manchete, é isso aí!
A Manchete é a preferida da Sapucaí
E do Anhembi!
Abaixo, você confere alguns vídeos que resgatam momentos importantes desta que se tornou uma das principais marcas da emissora dos Bloch, afinal, como dizia o último slogan adotado por ela, “Carnaval é na Manchete!”. Para saber mais, leia “Rede Manchete: aconteceu virou história”, de Elmo Francfort (Imprensa Oficial), e “Os Irmãos Karamabloch”, de Arnaldo Bloch (Companhia das Letras). Leia também “O som do Carnaval”.
O vídeo abaixo mostra o portifólio do designer e artista plástico Fernando Fernandes. Entre as vinhetas apresentadas, está a do Carnaval de 1988: “Carnaval é do Povo!”.
Vinheta do “Carnaval da Manchete” em 1995 (vídeo de mcilio)
Vinheta do “Carnaval da Manchete” em 1996 (vídeo de 15932107)
Comercial da promoção de escolha, pelo telefone, da musa do “Carnaval da Manchete” em 1997 (vídeo de 15932107)
Sargentelli apresenta o “Botequim da Manchete” em 1997 (vídeo de antoniomarcio63)
Dois momentos do “Botequim da Manchete” em 1998: o último Carnaval da Rede Manchete (vídeos por antoniomarcio63)


Olá amigos do carnaval e da cultura brasileira!
É com muita saudade que relembro as coberturas dos carnavais feitas pela emissora Manchete. Com ela vejo um compacto dos maravilhosos anos 80 e 90 apesar das dificuldades políticas e economicas o brasileiro era mais unido e amigo.
Prof. Éder – Santos -SP.
Éder Leite da Silva disse isso em 14/01/2012 às 7:36
show de bola
leandro disse isso em 25/07/2009 às 16:01
Muito bom o artigo! Em 1988, o slogan “O Carnaval é do Povo” fazia uma critica ao fato da Manchete ter sido impedida de transmitir os desfiles, o que foi uma lástima.
Assim como o amigo acima, coleciono material de carnaval e gostaria das transmissões da Manchete dos desfiles do segundo grupo, entre 1984 e 1987.
Abraço,
Marcelo
Marcelo disse isso em 28/05/2009 às 13:57