A influência da MTV no design da TV brasileira e internacional

MTV

Aproveitando o sucesso da exposição “Art Breaks: a MTV e a cultura visual contemporânea”, vale a pena comentarmos o quanto essa linguagem inovadora extrapolou as telas da emissora jovem e embarcou também em outros canais voltados para públicos mais que diversos.

Adotar processos de trabalho diferenciados e abraçar o experimentalismo em sua identidade visual: esses são dois dos maiores legados da MTV para o design mundial. Desde quando nasceu nos Estados Unidos em 1981 até hoje, o canal sempre foi um espaço que buscou romper com dogmas mais que estabelecidos, seja no design, seja na própria indústria televisiva. A abordagem de assuntos dos mais variados e, muitas vezes, impensáveis para grande parte dos canais no mundo, recebeu acolhida na MTV (e esse aspecto é destacado muito bem pela exposição, que divide em 36 categorias esse amplíssimo universo temático). No final, fica o sucesso de todo esse ineditismo, que se encontra em perfeita sintonia com o experimentalismo adotado também por todas as produções do canal e com a ânsia por novidade e ousadia tão presentes na personalidade do jovem.

Podemos afirmar também, sem medo de cometer equívocos, que a mutação da MTV para um canal de variedades mais sintonizado com o comportamento jovem como um todo do que somente com o seu gosto musical foi aceita de forma mais rápida pela sua audiência muito pelo fato desse comportamento jovem estar explícito bem fortemente na sua embalagem visual, o que criou uma maior sintonia entre essa linguagem e o jeito de ser do seu espectador (independentemente dele ouvir rock progressivo ou sertanejo). Como já foi dito em artigos anteriores aqui do Fernando Morgado Televisionado, a definição do posicionamento de um canal perante o público e a concorrência começa pela sua identidade visual, que leva o nome de “identidade” não por acaso, aproximando-se muito fortemente do conceito de “personalidade”, algo que o jovem ainda está formando e a MTV nasce como uma referência para ele (exatamente por possuir essa “personalidade” muito bem definida e que, se no jovem ela aparece através do seu modo de falar e vestir, por exemplo, na MTV ela aparece em seus programas e, sobretudo, suas vinhetas).

O livro “Admirável Mundo MTV Brasil”, de Rosana Martins e Maria Goretti Pedroso (Ed. Saraiva), aborda bem essa questão do papel de destaque da marca dentro do projeto MTV. Sem dúvida, a MTV é, em termos internacionais, uma das mais eficiente na tarefa de apresentar-se não apenas como uma empresa de radiodifusão, mas sim como o símbolo máximo do conhecimento e cultura do seu público. A MTV é a que melhor e mais vende sua marca como, efetivamente, uma grife. Ela foi uma das primeiras TVs do mundo a inserir seu logotipo no canto da tela durante os programas e é a única que coloca o nome do canal no título de absolutamente todas as atrações, fixando assim essa sigla na mente da sua audiência a todo o momento. Por tudo isso, é que a chegada da Internet e da TV sob demanda não provocará o fim da emissora (como alguns chegaram a afirmar). Muito pelo contrário: o reforço da marca como um diferencial único confere uma credibilidade e um respaldo frente ao público e ao mercado que fazem com que a MTV não só sobreviva como se afirme mais ainda como uma referência para aqueles que vivem e protagonizam a era da web 2.0 e 3.0. Esta é uma questão que as maiores redes de TV do Brasil e do mundo já estão atentas e também começaram a agir. Este é o caso apenas da ruptura de um modelo velho de TV (que ignora as novas tecnologias) para um novo. E de ruptura é o que a MTV mais entende.

Como está no texto do catálogo do “Art Breaks: a MTV e a cultura visual contemporânea”, escrito pelo professor, sócio-diretor da Tecnopop e curador da exposição André Stolarski, “a MTV havia desmontado na prática o cânone da identidade visual sistêmica e chamado a atenção para um campo bem mais amplo e intangível subjacente à construção das marcas. Mais do que isso, seu comportamento visual foi o índice inaugural de uma ruptura radical nas relações entre pessoas e corporações no final do século passado”. Essa ruptura radical a qual Stolarski se refere estendeu-se rapidamente para além da MTV, que fez escola ao mostrar que um símbolo – mesmo tendo sua forma, estrutura, cores, texturas e movimentos completamente mutados a todo o instante – não deixa de ser claramente identificável e pregnante. Dois exemplos muito interessantes disso são a Nickelodeon e a RedeTV!, que também, em momentos importantes de suas histórias, conseguiram manter sua unidade visual justamente através da diversidade estética e visual.

Na Nickelodeon, a cor laranja e a tipografia sempre permaneciam (servindo como o “elo” que unia a imagem deste canal para crianças da Viacom). O que mudava era a forma do símbolo, que se adequava ao tema de cada programa ou evento promovido pelo canal. Até o nome do canal podia ser alterado (“Nickelodeon” ou somente “Nick”). Essa estratégia reforçou a idéia de descontração e variedade da estação, além de associá-la, simultaneamente, a diversos assuntos ligados ao universo infantil, como foguetes, carrinhos, balas e até à silhuetas de personagens animados do próprio canal – sendo esta uma forma nova de interação entre a identidade visual do canal e a divulgação de seus programas, transformando a própria marca da emissora numa ferramenta efetiva, clara e direta de divulgação de seus produtos.

Nickelodeon

Já no caso da RedeTV! em 1999, a questão ganha outros contornos (literalmente). O desafio mostrava-se grande: apresentar uma nova televisão aberta, de alcance nacional, que entraria no ar em substituição ao sinal da TV Manchete, uma rede com mais de 15 anos de existência e que possuía uma marca bastante sólida na mente dos telespectadores. O objetivo era surprender (e, por isso, não é à toa a exclamação no nome do novo canal). O resultado final apresentou uma marca com tipografia arrojada, que buscava passar velocidade através da sua inclinação. A exclamação tinha maior peso, pois o objetivo, a longo prazo, era de, após o nome RedeTV! tornar-se conhecido do público, deixar como marca do canal apenas o “!”.

Mais uma vez, a variedade reforçou a unidade: em cada vinheta, o logotipo da emissora aparecia com texturas, cores e iluminações diversas em várias vinhetas (cada uma delas relacionada à um determinado gênero de programação). A forma bastante diferente da exclamação conseguiu ganhar uma relação forte com objetos como um pião de brinquedo e a Terra, por exemplo, reforçando ainda mais a ligação da emissora com o gênero apresentado no momento. A influência da MTV foi relevante nesse projeto inicial da RedeTV!, visto que seu primeiro diretor, Rogério Gallo, foi também diretor da MTV Brasil por muitos anos.

A MTV fez escola. Quebrou paradigmas. E acabou criando novos paradigmas. Um deles é o de que quando o conceito é forte e a personalidade do canal é clara e bem definida, a variedade gráfica só vem para somar e enriquecer o universo de imagens e idéias no qual orbita a emissora (universo este que ela mesma criou e define os seus limites a todo momento).

A exposição “Art Breaks: a MTV e a cultura visual contemporânea” está no Oi Futuro do Rio de Janeiro (Rua Dois de Dezembro, 63, Flamengo) e fica aberta até o dia 17/8. Saiba mais lendo o artigo “Art Breaks: a MTV e a cultura visual contemporânea”.

Aproveito a oportunidade para mandar um grande abraço ao professor André Stolarski, curador da exposição “Art Breaks: a MTV e a cultura visual contemporânea” e orientador do projeto de Design da TV Tupi que eu, Fernando Morgado, já estou realizando desde junho do ano passado e que será apresentado no final deste ano.

Assista a algumas das vinhetas apresentadas nos primeiros tempos da RedeTV! (postado por videosdatv). Dentre todas estas vinheas, apenas a penúltima (apresentada antes da infantil) não é da primeira fase, tendo sido feita muitos anos depois de 1999 (e aproveitando-se o som da vinheta de jornalismo original).

~ por Fernando Morgado em 10/07/2008.

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