Adolpho Bloch escreve: “Em se plantando, tudo dá”

“Este é o 11º primeiro mandamento que eu acrescentaria ao Decálogo de Moisés. Foram precisos 60 anos para que eu pudesse construir uma indústria de fato. Hoje, parece que eu estou bem economicamente e financeiramente. Devo este fenômeno à formação de boas equipes e à permanente melhoria da qualidade dos nossos produtos.
Agora, resolvemos ir para a terra. Ela dá tudo, em se plantando. No dia 12 de setembro, aniversário do meu amigo e companheiro JK, lembrei-me do que ele sempre me dizia: depois de suas metas, dando energia, transporte, carros, navios, estradas e Brasília, a sua meta prioritária seria a Agricultura. Eu estive lá, na sua fazenda de Luziânia, para assistir à inauguração da capela que tem o nome de sua mãe, Dona Júlia. Vi o pequeno sítio de 360 hectares onde está o Solar Dona Sarah. Parecia que eu estava em Israel. Vi café, arroz, feijão, milho, batata e o capim Brakiara. O solo era um deserto, roído pelo cupim durante milênio, até a crosta da terra se transformar em pó. Foi tratado com calcários e fosfatos. Hoje é um jardim que serve de exemplo à 1.400.000 km² de cerrado. Nunca vi tantas nascentes de água límpida. Naquela região só não chove poucos meses por ano. Uma pequena irrigação e a certeza de que não há geada são suficientes para transformar o cerrado num paraíso terrestre.
O Presidente Geisel foi visitar, na semana passada, a fazenda do meu amigo Bilac Pinto para assistir à colheita do trigo. A felicidade do seu rosto, ao pegar nas espigas ceifadas, dizia tudo. Ele também está convencido da grande potencialidade do cerrado. JK costumava dizer que ali estava o maior celeiro do mundo. E eu estou nessa.
Hoje, sou um entusiasta da terra. Acredito nela, tenho fé, creio que o Brasil com as suas riquezas poderá suspender as pílulas: haverá alimento para todos. Estou participando do nosso desenvolvimento. Resolvemos iniciar o projeto Bloch Agroindustrial. Em resumo, isso significa a desidratação dos alimentos para a transformação em matéria-prima vegetal, com alta taxa de conservação para posterior consumo. Em Pouso Alegre, Minas Gerais, compramos uma fazenda-modelo. Já estão chegando os técnicos israelenses para aprimorar a qualidade da produção e ensinar aos lavradores vizinhos o cultivo racional da terra. Produziremos cebola, alho, vagem, batata, pimentão, repolho, couve-flor, cenoura e espinafre. Dois terços de nossa produção já estão vendidos para o exterior. Um terço será para o mercado interno. Vamos instalar várias agroindústrias em diversos estados. Em meados de 1979, pretendemos trazer divisas para ajudar a pagar a nossa dívida contábil, que é tão pequena para um país tão grande. Gastamos nossas divisas no trabalho, nas estradas, nas hidrelétricas, no desenvolvimento. Israel possui a maior tecnologia agrária do mundo. Vende matéria-prima para a Knorr, Maggi e a Unilever. A sua marca é respeitada em todos os países. Com a ajuda dos técnicos de Israel, a nossa marca também será respeitada.
Meus amigos:
Costumo dizer que a natureza não aprecia terra virgem. Ela não dá nada. Em 1967, estive na fazenda de León Tolstoi, em Túla, que dista 400 km de Moscou. Vi as famosas planícies da região Iásnaiá Poliana, uma terra preta, a mais fértil do mundo. Estava acompanhado do meu motorista Víktor Ivávovitch, homem de fino trato, que me controlava os passos a pedido do KGB. Perguntei-lhe por que a Rússia continuava importando trigo da Austrália e do Canadá. Ele me respondeu: “Továrichtch Bloch, o senhor não se lembra que Churchill dizia a respeito de Kruchev? É preciso ser um gênio político para deixar faltar trigo na Rússia!” Eu também acho que é preciso ser gênio para deixar o mundo sem alimentos.
Acredito nos homens que deixam a cidade e se dedicam ao campo. Eles levam a sua experiência empresarial para ser aplicada na agricultura. Levam uma mentalidade nova e resolvem os problemas imediatamente. Enquanto isso, conheço uma fazenda de amigos meus, em Juiz de Fora. Há quatro gerações eles discutem se devem ou não instalar um pequeno gerador para terem luz à noite. Agora, com as novelas, não tiveram outra solução. Foram obrigados a evoluir. Lembro-me da luta de Assis Chateaubriand pelo milho híbrido. Em Israel, há uma semente híbrida de trigo que produz três vezes mais por hectare, em qualquer clima. Prometi trazer uma amostra para o meu amigo Antônio Azeredo, do Banco do Brasil. E vou cumpri-la.
Somos um país-continente, com muita água, com todos os climas e com indústrias de base que fabricam máquinas. O que estamos esperando? Não tenho dúvida de que vamos festejar o ano 2000 tomando champanha Moet & Chandon nacional, fabricado pelo meu amigo Joaquim Monteiro de Carvalho.
Tenho muitas idéias. Quero ir para a mineralogia e, se o tempo me sobrar, vou cursar a Escola de Ouro Preto, onde José Ermírio de Moraes começou a sua vida.
Meus amigos: Com toda a tecnologia moderna, nós não conseguimos acrescentar um centímetro de terra ao nosso globo. Somos obrigados a trabalhar dentro daquilo que temos em nossos limites. A vida é fabulosa. É preciso ter uma motivação e saber transmiti-la às futuras gerações. Há uns seis anos, mandei cortar milhares de pés de eucaliptos que plantei em minha casa de Teresópolis. Plantei depois 6 mil pés de pinheiros, da fazenda dos Klabin, no Paraná. A minha mulher, assistindo à devastação, reclamou energicamente: “Bloch! Esses pinheiros vão demorar quinze anos para crescer!” Eu respondi, com calma: “Não tem importância, eu espero!” Hoje, os pinheiros já estão crescidos, altos e bonitos. E a minha mulher está orgulhosa deles.
Toda a vez que assumimos responsabilidades no trabalho, mais fácil a vida se torna. Tenho muito o que fazer. Plantar uma árvore, uma flor, uma verdura, uma fruta. É uma alegria que faz o coração vibrar. A Agricultura hoje é a minha meta. Ela me torna um jovem que começa a vida.”
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(Discurso pronunciado por ocasião da entrega dos Prêmios Agricultura-77, em 18 de setembro de 1977)
08-10-77
Extraído do livro “O Pilão” (Bloch Editores, 1978). Este livro apresenta uma coletânea de artigos assinados por Adolpho Bloch e publicados na revista “Manchete”. Na foto, Adolpho Bloch discursa ao lado de sua dálmata Manchetinha na pré-inauguração do Teatro Adolpho Bloch.
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