Como nasceu o indiozinho da Tupi?

O começo das atividades da PRF-3-TV Tupi-Difusora representava, na verdade, dois grandes desafios: o primeiro era fazer com que as pessoas se habituassem à programação e os artistas da nova emissora, e o segundo era fazer com que as pessoas se habituassem à TV em si. Uma dupla missão que tornou ainda mais árdua a tarefa dos nossos pioneiros.

Como forma de acelerar esse processo de adaptação por parte do público, muito foi feito para explicar exatamente do que se tratava aquela nova caixa iluminada que passaria a ser peça obrigatória das salas de todos os brasileiros. Para isso, muitos apelidos foram empregados e um deles, que para muitos era o mais adequado, foi usado à exaustão: “rádio com imagens”.

Transferir a popularidade do maior entretenimento da época para aquele que estava nascendo não era uma estratégia inédita, já que muito do cinema mudo, por exemplo, veio do teatro. Essa receita foi novamente usada, sendo, dessa vez, o rádio a principal fonte de talentos, programas e até esquemas comerciais. Tudo (ou praticamente tudo) do que se viu nos primeiros tempos da TV já era parte da vida das pessoas através das rádios Associadas paulistanas Tupi e Difusora (que, como se pode ver, emprestaram até seus nomes à nova estação).

A identificação gráfica da nova televisão também veio do rádio. Muitos podem se perguntar como isso era possível, visto que o rádio não tem imagens. É que o rádio, além de ceder seu nome, cedeu seu símbolo, que já era muito familiar para os ouvintes paulistas (especialmente devido à maciça divulgação feita através dos jornais e revistas Associadas): era o índio guerreiro da PRG-2 que, com seu olhar fixo no horizonte, sua lança na mão e seu físico trabalhado, impunha respeito.

Respeito e tradição: dois valores que justificam a adoção, pela nova emissora televisiva, do bravo índio como símbolo. Ele transferia para o vídeo, além da sua cara fechada, todo o respeito e tradição conquistada pela Rádio Tupi paulistana.

Porém, o começo da televisão envolvia um trabalho muito complexo e falhas, especialmente técnicas, freqüentemente aconteciam. E quando elas aconteciam, recorria-se ao índio guerreiro, que permanecia, às vezes horas a fio, firme, bravo e olhando para o horizonte.

O público não perdoa. Insatisfeito com as constantes interrupções, ele passou a transferir para a imagem do índio a idéia de algo enfadonho. Chegou-se até a cunhar a seguinte expressão: “Você é mais chato que o índio da Tupi!”. Quando uma coisa dessas começa a acontecer e sua marca, antes tão respeitada, passa a ser sinônimo de coisa ruim, é chegada a hora de se fazer algo para mudar isso. E rápido.

Mario Fanucchi, então responsável pela feitura das cartelas que abriam e encerravam os programas e transmissões (o primeiro diretor de arte da nossa TV), propôs algo que viria a marcar para sempre a vida de várias gerações de brasileiros: em substituição àquele grande índio sério, entraria no ar o pequeno e simpático Tupiniquim. Os traços desse menino-índio eram, segundo o próprio Fanucchi, inspirados na estética Disney, que, na época, estava ainda se consolidando no cenário internacional.

O risonho índio serviria para amansar o telespectador impaciente e, ao mesmo tempo, aproximar o canal do público infantil. O indiozinho também trouxe consigo outra revolução: ele, como a marca do canal, passou a interagir também com os títulos e artistas das atrações através de belíssimas ilustrações.

Isso deu uma nova dinâmica para a televisão brasileira e essa experiência altamente bem-sucedida serviu de base para todas as outras televisões Associadas que foram inauguradas depois e também para as concorrentes, que enxergaram nos mascotes uma forma de contornar problemas e fidelizar seu público.

Para saber mais sobre essa belíssima história, não deixe de ler o livro “Nossa próxima atração: o interprograma no canal 3”, de Mario Fanucchi, publicado pela Edusp.

~ por Fernando Morgado em 08/05/2008.

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