A história do design na TV internacional

“Na década de 60, o design gráfico expandira-se para áreas anteriormente reguladas por tradições de ofício, como o design de jornais, e também para novos meios – televisão e vídeo. As imagens sem movimento dos designers, embora pudessem ser geradas e controladas eletronicamente, tinham de competir – ou mesclar-se – com as imagens em movimento das telas de TV”.

Este trecho do livro “Design Gráfico: uma história concisa”, de Richard Hollis, resume bem a revolução pela qual passava o design no começo dos anos 1950, que, naquele momento, começava a entrar na televisão através dos departamentos de arte das emissoras. Esses departamentos, até então, eram comandados por profissionais que não possuíam métodos e/ou processos constantes de trabalho e se valiam apenas das suas (poucas) experiências na hora de fazer ou não alguma coisa.

Logo depois da 2ª Guerra Mundial, começaram a se destacar diversos nomes que, até hoje, são tidos como referência em todo o mundo, graças aos seus complexos e pioneiros trabalhos de criação de sistemas de identidade visual para grandes emissoras de TV.

William Golden: o olho da CBS

Obcecado pela perfeição. Assim pode se resumir, em poucas palavras, quem foi o criador de um das mais poderosas marcas da História: o olho da CBS (Columbia Broadcasting Company). Após acumular experiências em revistas e agências de propaganda, além de ter passado pelo departamento de publicidade da CBS Radio, William Golden entra em definitivo na CBS logo após o término da 2ª Guerra Mundial chefiando o setor responsável pela publicidade da CBS-TV. Ele foi o primeiro a compreender a identidade visual de um canal de TV de uma forma integrada, unindo, num mesmo conceito, vinhetas, papelaria, peças publicitárias e até o pensamento da programação: “Se você gosta dos programas que a CBS transmite, provavelmente acha que o símbolo é bom”.

O olho da CBS foi ao ar pela primeira vez (segundo a própria emissora) em 20 de outubro de 1951, um sábado. O impacto foi forte e sentido imediatamente. Era muito grande o contraste entre a apresentação da CBS – baseada agora numa marca clara, de fácil compreensão e perfeitamente alinhada com a idéia de televisão – com a identidade visual das outras estações da época. Essa diferenciação foi decisiva na construção da imagem de “The Tiffany Network” (“a rede Tiffany”: um apelido dado pela imprensa e pelo público da época que associava a CBS com a famosa joalheria de luxo, numa referência direta a alta qualidade das produções e apresentações da emissora, incluindo suas vinhetas).

Paul Rand: uma grande referência

Considerado por muitos como o maior designer da história dos EUA, Paul Rand criou marcas que são empregadas até hoje exatamente como ele as criou originalmente, como IBM, UPS, Cummins, Westinghouse e da ABC (American Broadcasting Company).

O símbolo da ABC foi lançado em 1962. É notória a relação entre esse símbolo e as influências do construtivismo e da Bauhaus, pois é uma marca objetiva, econômica no emprego de elementos e totalmente estruturada em cima de círculos (uma das três formas básicas).

Uma curiosidade: duas marcas de Paul Rand podem ser consideradas como, de certa forma, presentes na história da TV brasileira: a da ABC, que serviu de base para a do SBT, e a da Westinghouse, que lembra a da Rede Manchete, conforme comentou o próprio criador do símbolo da emissora dos Bloch, o publicitário Francesc Petit, em seu livro “Marca”: “Um dia, mostrei um livrinho que tinha editado com algumas marcas a um colega de profissão em Barcelona. Quando chegou na marca da Manchete, ele virou o livrinho de ponta-cabeça e falou: ‘Petit, esta é a marca da Westinghouse ao contrário’. Ninguém no Brasil tinha se dado conta dessa coincidência”.

ABC e SBT

Westinghouse e Rede Manchete

Erberto Carboni: o modernismo italiano na TV

Como está descrito no livro “Design Gráfico: uma história concisa”, o modernismo na Itália deve-se muito a um homem: Antonio Boggeri. Ele foi o responsável, através do seu Studio Boggeri, por trabalhos que, a partir da década de 1930, delinearam muito bem esse movimento, que possui fortes raízes no futurismo. Muitos daqueles que, nas décadas seguintes, despontaram como os grandes nomes do design italiano começaram suas carreiras no escritório de Boggeri. Um deles foi Erberto Carboni, que se destacou na área de design de exposições, mas também criou marcas importantes, como a primeira da história da TV italiana, entre 1952 e 1953. É interessante notar a forte geometria desse trabalho (outra característica marcante do modernismo italiano).

Pedro Ramírez Vázquez: o olho da Televisa

Arquiteto responsável pelo projeto do Estádio Azteca, palco das finais das copas de 1970 e 1986, Pedro Ramírez Vázquez criou, em 1972, a marca que representa a maior empresa de comunicação em espanhol do mundo: a mexicana Televisa (produtora de programas de grande sucesso como “Chaves” e “Chapolin”).

A Televisa nasceu da fusão, em 1973, das empresas Telesistema Mexicano e Televisión Independiente de México, compondo assim um grupo de quatro redes de televisão (lideradas pelos canais dois, quatro, cinco e oito), além de editora, gravadora, produtora, rádios, times de futebol e o próprio Estádio Azteca. O nome Televisa é a abreviação de “Televisión Via Satélite”, numa referência a mais nova tecnologia de transmissão de sinais de TV existente na época, que encurtou ainda mais as distâncias e permitiu, de forma menos onerosa e mais ágil, o avanço dos sinais de televisão ao redor do mundo.

Pedro Ramírez Vázquez criou um olho composto por várias linhas horizontais de espessuras diferentes, tendo ao centro a forma de um círculo. Esse símbolo possui uma forma que lembra muito o mapa-mundi planificado, ao mesmo tempo que o círculo do centro remete ao nascer do Sol no horizonte, como se anunciasse um novo dia, um novo começo. O olho (já empregado por emissoras como a CBS e a Bandeirantes) representa não somente o olho do espectador (o “olho público”, como dizia o presidente da CBS na época do lançamento da marca de William Golden, Frank Stanton), mas também a visão da própria emissora frente aos acontecimentos do país e do exterior (numa referência ao jornalismo) e frente ao mercado de comunicação nacional e internacional.

CBS e TV Bandeirantes (anos 1970)

Em janeiro de 2001, foi lançada uma nova versão da marca de Vázquez, criada pela vice-presidência de imagem corporativa (liderada por Virna Winckelmann). O objetivo agora era o de marcar a chegada da nova geração da família Azcárraga ao comando da organização, além de explicitar ainda mais o caráter global do negócio (através da inclusão de uma esfera tridimensional no centro do olho). O azul, cor que é muito associada à idéia de mundo e seriedade, foi incorporado pela identidade visual, contrastando com o calor do laranja, que permaneceu no símbolo. Como forma de facilitar a reprodução do logotipo por parte de todos os que trabalham com a marca Televisa, foi incorporada como tipografia a Helvetica Black.

anos 1970 e 2000

Assista a uma reportagem produzida pela CBS News que conta a história de mais de meio século do “CBS eye”: o olho da CBS criado por William Golden (postado por eyeontv).

Clicando aqui, você pode baixar a fonte “Telerisa” (para PC), criada a partir da tipografia adotada para o logotipo da Televisa de 1973. Não deixe o site Tiypo.  Além da “Telerisa”, estão disponíveis outras várias fontes gratuitas, além de muitas referências sobre tipografia.

Para saber mais, não deixe de ler os livros: ”Marca”, de Francesc Petit, da Editora Futura, e “Design Gráfico: uma história concisa”, de Richard Hollis, publicado pela Martins Fontes.

~ por Fernando Morgado em 21/04/2008.

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