“Será que há público para Carlos Imperial?”

“Ao ver ocupado por outro programa o horário que a Tupi destinava àquela infernal – e profundamente lamentável – discoteca do Carlos Imperial, cheguei a pensar que esta, finalmente, saíra do ar para sempre. Qual foi a minha surpresa quando, um domingo desses, deparei-me com o mesmo Imperial e a mesma discoteca no vídeo da TV Studios. Pessoalmente, até que não tenho nada contra o citado apresentador, um tipo de certo ousado e vez por outra criativo. Mas esse seu programa ultrapassa todos os limites do tolerável pelo bom gosto. Será que há público para ele?”

Esta carta enviada por um telespectador e publicada pelo Jornal do Brasil na edição de 2 de dezembro de 1979 talvez sirva para sentirmos exatamente de quem ousaremos falar nesse artigo. Ousaremos porque não é uma das tarefas mais fáceis escrever, em algumas linhas, sobre alguém que possuía dezenas de talentos e que, com os seus trabalhos, despertava os mais intensos ódios ou as maiores paixões. E se fossem paixões, que elas viessem, de preferência, de mulheres. Belas mulheres.

Carlos Imperial – que nasceu em 1935 na cidade de Cachoeiro de Itapemirim – começou e terminou sua carreira artística no cinema. No início, ele fazia pequenas participações e ganhou a confiança dos diretores da época por ser o cara que “topava tudo”. A explosão do rock, no final dos anos 1950, foi o momento em que ele se aproximou das gravadoras, rádios, revistas e TVs. Em pouco tempo, Imperial estava envolvido na produção e no lançamento de nomes que fazem sucesso até hoje: de Gretchen a Roberto Carlos, passando por Clara Nunes, Tim Maia, Erasmo Carlos, Wilson Simonal e praticamente todos os líderes das gerações Jovem Guarda e “discotheque”. Como compositor, são creditados a ele sucessos eternos como, por exemplo, “A Praça”, interpretada por Ronnie Von e tema até hoje da A Praça é Nossa, e “O Bom”, interpretada por Eduardo Araújo.

Na TV Tupi carioca, aonde chegou a ocupar o cargo de diretor artístico, comandou o programa Clube do Rock que, mesmo tendo durado pouco, foi decisivo. Lá se apresentou, pela primeira e única vez, o conjunto “Os Sputniks”, que tinha Tim Maia, Erasmo e Roberto Carlos como integrantes. Ao mesmo tempo, assinava artigos em revistas: desde “O Mundo é dos Brotos”, na Revista do Rádio em 1961, até a sua coluna, já nos anos 1970, na revista Amiga, que sempre começava com a célebre frase “Sem liberdade para espinafrar, nenhum elogio é válido”.

Em 1967, chegou a ser preso em Ilha Grande após enviar um cartão de natal para alguns dos mais poderosos militares da época com uma foto dele sentado na privada tendo a seguinte legenda: “Espero que Papai Noel não faça no seu sapato o que faço neste cartão”.

Na Rede Tupi, entre 1977 e 1979, Carlos Imperial tornou-se sinônimo de “embalos de sábado à noite”, comandando um programa que levava seu nome e era marcado pela grande quantidade de mulheres jovens e bonitas (apelidadas de “lebres”) que dançavam ao som dos maiores sucessos da época, a maioria lançados pelo próprio Imperial: Dudu França, Zé Luis, The Fevers, Harmony Cats, Renato e seus Blue Caps, Banda Black Rio, Sônia Santos, Rosana, Regina, Bianca, Lilian, Paulinho Camargo, Lady Zu, entre tantos outros. Em 1979, transferiu-se para a TVS levando seu humor, suas músicas e, claro, suas “lebres” para o novo canal, onde permaneceu por mais algum tempo.

Agora também como produtor, através da CIPAL (empresa criada por ele em 1974), Carlos Imperial continuava a atuar fortemente no cinema realizando filmes do gênero pornochanchada (foram quase cinqüenta) com títulos mais que sugestivos: Agüenta o Rojão, Banana Mecânica, Meninas Querem… E os Coroas Podem, A Ilha das Cangaceiras Virgens, Loucuras, o Bumbum de Ouro, Um Marciano em Minha Cama e Os Bons Tempos Voltaram: Vamos Gozar Outra Vez.

Durante os anos 1980, dedicou-se a política, elegendo-se como o vereador mais votado da Cidade do Rio de Janeiro. Chegou a candidatar-se a prefeito em 1985, mas não foi eleito. Foi também o leitor das notas durante a Apuração do carnaval carioca e o seu “Dez! Nota Dez!” tornou-se marca registrada.

Não bebia, não fumava e não usava drogas. Segundo seus amigos, Impera (como era chamado) só tinha dois vícios: Coca-Cola e mulher.

Carlos Imperial faleceu em 1992, dez dias antes de completar 57 anos.

Agora, após passearmos por toda essa história, por todos esses feitos, por toda essa vida mais do que intensa, vamos retornar a pergunta inicial feita pelo leitor do JB: “Será que há público para ele?”. A resposta é: sim. Há público para Carlos Imperial até hoje, pois muito do que se faz em cinema, teatro, música, televisão, revistas, rádio e até política foi criado ou transformado por essa ebulição em forma de artista.

* O texto do Jornal do Brasil citado nesta reportagem foi conseguido através de pesquisa no site TV-Pesquisa (http://www.tv-pesquisa.com.puc-rio.br). Para saber mais sobre Carlos Imperial acesse também Adoro Cinema Brasileiro (http://www.adorocinemabrasileiro.com.br/personalidades/carlos-imperial/carlos-imperial.asp) e Discoteca Básica (http://www.interney.net/blogs/dbasica/2008/03/12/carlos_imperial/).

Texto publicado e disponível na coluna Televisionado, no portal Tele História. http://www.telehistoria.com.br/thnews/colunas_integra.asp?idColuna=1407

Deixe um comentário