“Mundo Mágico”: o primeiro programa da Manchete
Dirigir o show inaugural de uma rede de televisão deve ser uma das tarefas mais árduas que pode existir, afinal, geralmente quando se lança uma nova atração, há sempre a dúvida se ela dará ou não certo, e mais, se ela irá ou não figurar para sempre na memória dos telespectadores e na história da TV. Acontece que o primeiro programa de uma emissora já é, pelo simples fato de ser o primeiro, um marco histórico nas comunicações. É o cartão de visita que apresenta o que aquele canal se propõe a mostrar e como ele se apresentará diante do público.
Taba na TV, por exemplo, que foi o primeiro programa da TV brasileira, tinha uma dupla missão: apresentar uma nova emissora, a Tupi, e apresentar um novo meio de comunicação, a televisão. Por isso, optou-se por calcar o programa em diversos quadros que contemplassem todos os gêneros televisivos – das resenhas esportivas ao humor, passando pelas notícias, infantis e musicais –, todos eles tendo como referência a mídia-mãe, o rádio, que legou à TV todos os seus primeiros grandes nomes e sucessos.
A Excelsior, por sua vez, apresentava-se como uma televisão nacionalista, que valorizava a cultura brasileira, e por isso seu show inaugural tinha um título que remetia justamente ao gênero musical nascido no Brasil mais conhecido no exterior, além de fazer uma alusão ao número do canal em São Paulo: Bossa Nove.
O caso do SBT talvez seja o mais curioso de todos: seu surgimento como rede nacional, ocorrido em 1981, foi com a transmissão da assinatura do contrato entre Silvio Santos e o Ministério das Comunicações que permitia a entrada no ar da nova rede, um feito inédito em todo o mundo. Anos mais tarde, Homero Salles – diretor dessa transmissão –, admitiria algo mais curioso ainda: que, para fazer essa transmissão, o SBT teve de entrar no ar quinze minutos antes do momento da assinatura da concessão, ou seja, durante quinze minutos o SBT esteve no ar de forma clandestina, sem autorização.
No mesmo dia em que o SBT recebia suas concessões, 19/8/1981, Adolpho Bloch também recebia autorização do governo para operar sua própria rede, que viria a receber o nome de sua principal revista, Manchete, mas só entraria no ar quase dois anos depois, no dia 5/6/1983, um domingo, às 19h02min.
Esse foi um dos dias mais aguardados da história da televisão brasileira. Os jornais já apresentavam a nova empreitada dos Bloch como a “televisão do ano 2000”, e que nasceria com equipamentos do século XXI e uma programação voltada à um segmento de renda e nível cultural mais elevado.
Então, como apresentar-se a esse público tão exigente, sem perder de vista o fato de ser uma televisão aberta, generalista, deixando a porta aberta para o grande público também poder entrar e assistir? Somente pessoas do nível de Rubens Furtado (então diretor geral da Manchete) e do renomado cineasta Nelson Pereira dos Santos poderiam vencer esse desafio. Eles criaram e dirigiram um especial chamado Mundo Mágico, numa clara referência à idéia de beleza e tecnologia inerentes ao universo da televisão.
Esse espetáculo, que teve duração de três horas, apresentou diversos números musicais extremamente bem produzidos. Cada uma das atrações tinha seu cenário próprio, rigorosamente projetados para o melhor entrosamento entre figurino, iluminação e marcação de cena. Esses quadros eram costurados com flagrantes de bastidores, que revelavam os grandes ídolos da época sem maquiagem, em momentos de descontração, se preparando para entrar em cena. Eram nessas partes que os equipamentos e profissionais da “TV de 1ª classe” eram apresentados ao Brasil, revelando esse “mundo mágico” da comunicação.
O show teve a participação de Blitz, Milton Nascimento, Kleiton e Kledir, Paulinho da Viola, Arthur Moreira Lima, Elba Ramalho, Alceu Valença, Dona Ivone Lara, Sérgio Mendes, Watusi, os bailarinos Fernando Bujones e Ana Botafogo, o Balé Nacional de Marselha, Lucinha Lins e o marido Cláudio Tovar, Zizi Possi, Roupa Nova (banda autora da primeira trilha sonora da Manchete), entre muitos outros.
O especial Mundo Mágico alcançou, na média, o segundo lugar de audiência em todo o Brasil, chegando a, em alguns quartos de hora, ocupar o primeiro lugar. Esse programa bateu um recorde: ele obteve o maior faturamento da história da televisão brasileira (900 milhões de cruzeiros na época).
Estamos na torcida de vermos esse grande espetáculo, um dia, lançado em DVD. Enquanto isso, podemos apreciar três números ótimos do Mundo Mágico no YouTube.
Roupa Nova canta seus sucessos “Sapato Velho” e “Anjo”:
Zizi Possi canta “É a Vida que Diz”:
Lucinha Lins e Cláudio Tovar (que, posteriormente, viriam a apresentar na Manchete o infantil Lupu Limpim Claplá Topô) dançam “Tango”, de Ivan Lins:

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