TV digital e Ricardo Kauffmann: realização com paixão
Paratodos: o jornal da ESPM/RJ (out/nov 2007)
A TV brasileira de hoje, presente em todos os lares do país e admirada, respeitada e, muitas vezes, copiada no resto do mundo, é resultado do talento e trabalho de milhares de pessoas que dedicam grande parte da suas vidas à realização de produções de altíssima qualidade técnica e artística. Uma dessas pessoas é, sem dúvida, Ricardo Kauffmann. Kauffmann trabalhou por quase vinte anos na Rede Globo, tendo passado por diversos setores e participado da produção de algumas das atrações mais marcantes da história da TV, como a primeira edição do “Fantástico”, em 1972, e de diversas telenovelas e musicais. Também trabalhou na TV Piratini, emissora dos Diários Associados em Porto Alegre, onde conheceu pessoalmente Assis Chateaubriand, o homem que trouxe a TV para o Brasil. Além disso, implementou mais de quarenta estações de TV no Brasil e no exterior, é um dos fundadores da SET – Sociedade Brasileira de Engenharia de Televisão e atualmente comanda a Energia Broadcast, a líder nacional em baterias, luminárias e acessórios para o setor audiovisual. Ricardo Kauffmann recebeu a equipe do Paratodos na sede da Energia Broadcast, no Rio de Janeiro, e falou sobre a TV digital – tema da palestra realizada por ele durante a I Semana de Comunicação da ESPM/RJ –, sua trajetória profissional e, principalmente, sua paixão incondicional pela TV.
Durante a sua palestra na Semana de Comunicação da ESPM, você chegou a falar que a TV digital traria tantas novidades que a televisão deveria ganhar um novo nome…
É verdade. Pode ser entendido como um novo business porque vai possibilitar uma série de outras coisas além de transmitir entretenimento pura e simplesmente da forma como conhecemos hoje. Não se sabe até bem onde isso vai chegar, assim como na época da inauguração da TV no Brasil quando, em 1950, depois de terminado o show da estréia, entre todos aqueles cumprimentos, teve um diretor que perguntou: “Vem cá, o que a gente vai botar no ar amanhã?”. Aí é que se deram conta do que é a televisão, porque as pessoas até então tinham experiência de teatro e no teatro a peça é a mesma e o público muda, enquanto na televisão é o contrário: a platéia não muda, o que tem que mudar é o conteúdo! Então televisão é um negócio mágico por conta dessa fome que ela tem de absorver conteúdo, que faz com que aqueles que trabalham nela exercitem sua capacidade ao máximo.
Há um reconhecimento no exterior da TV brasileira?
Ah, isso é notável em qualquer fórum que você vai discutir, seja de engenharia, artístico, de produção, ou mesmo quando empresários, donos de empresas de fornecimento de equipamentos, fornecimento de conteúdo, vêm para o Brasil e a gente leva para visitar alguns centros, como o da Anhangüera, do SBT, ou o Projac, aqui no Rio, fica patente que o nível do que se vê no Brasil é superior ao dos maiores centros de produção no mundo.
Como você descobriu a televisão?
Um amigo meu de Escola Técnica era filho do Coronel (Wilson) Brito, que era o diretor de engenharia da TV Rio na época. Então, comecei a freqüentar a TV Rio, virei uma espécie de rato de estúdio para assistir aquelas coisas e a paixão foi aumentando… Entrar na TV Rio naquela época dava a mesma sensação de entrar na NASA. Você fica louco com aquelas coisas todas, e tudo na base do descobrimento, não existia quem conhecesse televisão.
Você passou quanto tempo na Globo?
Contando o entra-e-sai, eu entrei na Globo em 1967 e fiquei lá até 1986, quando eu senti que o mercado estava pronto e eu estava pronto para fazer isso, mas tenho bons amigos lá, até hoje fazemos muita coisa com eles… A ligação é muito forte com a TV Globo. Estamos falando de dezenove anos. Principalmente numa fase em que tudo era por descobrir, então os erros eram mais ou menos permitidos, nem tanto perdoados, porque o Boni era implacável com esse negócio de erro, mas era permitido errar.
Como você participou da fundação da SET?
A SET foi recente, eu já tinha saído da TV Globo. A SET foi idealizada pelo então diretor de engenharia da Globo, Adilson Malta. Ele me chamou para ser o diretor administrativo. Jaime Barros, que era um outro diretor da Globo, mais o Adilson e eu, é que construímos a SET. Depois outras pessoas foram e juntando e hoje a SET é uma instituição muito importante, tendo capacitado toda a construção da TV digital no Brasil que, apesar de ter como base o sistema japonês, ele é um padrão diferente, como foi a TV colorida.
Algum país da América Latina já possui a TV digital?
Alguns países, como Chile, Bolívia, já possuem definições, mas nada muito definitivo.
Como você vê hoje o mercado de televisão aberta no Brasil?
O que a gente sente hoje é que há uma concorrência maior. O mercado cresce porque a economia cresce, e esse crescimento é vegetativo. O mercado publicitário em si acompanha o crescimento o país, esse mercado está sendo fracionado. Antes você tinha uma concentração enorme das verbas publicitárias em cima da televisão e, com o passar dos anos, a televisão vem perdendo espaço, mesmo com a receita aumentando, para outros meios que estão tomando parcelas do mercado. A TV digital não vai trazer receita, mas se a TV não mudar, não passar para HDTV, vai acabar virando rádio AM.
Segundo algumas estatísticas, por volta de 70% das pessoas que assinam TV por assinatura no Brasil o fazem para ver TV aberta melhor. Você acha que, com a TV digital e a melhoria da imagem da TV aberta, o número de pessoas que assinam TV a cabo no Brasil pode cair?
Pode cair sim. Não sei se isso que você falou pode nortear essa decisão, porque existem outros fatores que fazem a pessoa assinar TV a cabo. Mas o fato é que se você pegar os ratings de audiência da TV por assinatura verá que é a reprodução da lista da TV aberta, e o canal a cabo só chega mesmo na quinta posição. A TV no Brasil é diferente. Não existe nenhum lugar no mundo em que o número de aparelhos ligados, percentualmente, no horário nobre seja igual a do Brasil.
Uma mensagem final para nossos alunos e leitores:
Televisão é algo da maior importância. Ainda mais no Brasil, onde o alcance não tem paralelo. Então, fazer parte disso é algo extremamente gratificante porque você percebe que todos os seus atos vão participar diretamente desse resultado. É uma atividade humana sem igual e um negócio apaixonante. E que aqueles que irão trabalhar na televisão tenham, junto com a noção do prazer de trabalhar em TV, a medida dessa responsabilidade, porque você vai mandar informação para pessoas, muitas vezes, sem nenhuma informação. Na televisão, você estará formando uma nação.



oi Fernando!
Os artigos estão como sempre, ótimos!
São um pouco da história da TV e uma referência para todos que se interessam sobre o passado e futuro do meio de comunicação.
J.Silvestre, Olho no Lance, a entrevista com Kauffman, enfim… o blog tem tudo pra ser lido sempre! e é material para seu livro, que espero ver publicado em breve!
Parabéns!
bj,
vz
vzunino disse isso em 07/03/2008 às 10:10