Visto por muitos como o maior vendedor do Brasil, Luiz Galebe construiu o Shop Tour: um formato pioneiro de publicidade pela televisão. Aliando seu poder de persuasão com o trabalho de uma equipe de centenas de pessoas em todo o Brasil, o Shop Tour, que começou como um programa de TV nas madrugadas em 1987, hoje opera um canal de TV aberta na Grande São Paulo, possui um site com milhares de acessos diários e ainda conduz projetos de franquia do seu formato em emissoras de várias cidades brasileiras.
Nesta entrevista concedida com exclusividade para o blog do Fernando Morgado, Luiz Galebe fala do seu começo na televisão, dos desafios envolvendo a proteção do formato “Shop Tour”, da expansão da sua rede de franqueados e de quais são os segredos para se alcançar o sucesso.
Fernando Morgado: Você é considerado um dos maiores vendedores do Brasil. Na sua opinião, a arte de vender tem mais a ver com vocação ou com técnica?
Luiz Galebe: Antigamente era vocação, hoje, é pura técnica. Evidentemente que uma pessoa com vocação para vender, ao associar conhecimento e técnica, fica muito melhor.
Fernando Morgado: Como você começou a sua trajetória na televisão?
Luiz Galebe: Comprando horário nas outras emissoras.
Fernando Morgado: Você foi o pioneiro no formato de televendas no Brasil. Quais foram os primeiros desafios que você enfrentou na construção deste gênero?
Luiz Galebe: O primeiro desafio é a conclusão do raciocínio: o que deveria ser exatamente o Shop Tour? Foram centenas de testes de formatos até se chegar no atual. Não é fácil ser o primeiro. No início, as pessoas diziam que eu tinha trazido o formato dos EUA e que era impossível para elas algo tão bom ter nascido aqui mesmo. Por conta desta idéia, todos se sentiram no direito de distorcer a minha criação, copiando e alterando seu formato.
Os tribunais não tem experiência em aplicar as leis de proteção autoral. Aqui no Brasil, só se protege aquilo que se consegue apalpar. Uma idéia genial não tem proteção, só se for por obrigação de direitos internacionais ou direito dos estrangeiros. Exemplo: se o Shop Tour fosse da Sony, certamente teria seu direito autoral exercido. Parece estranho, mas não é.
Lembre que o Brasil é o único pais do mundo onde uma pessoa com sotaque estrangeiro vale mais do que um nativo, é como se ele tivesse algo de maior para nos ensinar. Em parte isto é bom porque transforma o Brasil num ambiente sem hostilidade mas, por outro lado, este pensamento nega a grandeza do brasileiro que inventa e cria, subordinando-o ao papel de cópia, mesmo que ele seja o autor. Desta forma, parece que nossa inteligência é acidental. As cópias nascem deste pensamento e se aproveitam parasitariamente do Shop Tour.
Fernando Morgado: A carteira de anunciantes do Shop Tour agrega empresas dos mais diversos portes e setores econômicos. Como o canal se adapta às necessidades específicas de cada um desses anunciantes?
Luiz Galebe: O formato do Shop Tour é, por si só, tão eficiente, que todos os clientes querem mantê-lo com ele é, querem fazer Shop Tour. Não há necessidade de adaptação: o negócio é dar o recado de maneira simples e realista, sem máscaras ou maquiagem.
Fernando Morgado: Como você concilia o trabalho de proprietário do Shop Tour e garoto-propaganda de grandes anunciantes como Vivo e Chevrolet, por exemplo?
Luiz Galebe: É preciso ter um time e tanto para que isto seja possível, e isso eu tenho: o time Shop Tour é o melhor do Brasil. É mais difícil conciliar a vida familiar — esposa e filhos. O trabalho suga muito do tempo e eu sou muito família.
Fernando Morgado: Hoje, o Shop Tour amplia a presença da sua marca através do sistema de franquia. Como tem sido esta experiência e quais são as principais diferenças deste modelo para o tradicional sistema de afiliação adotado pelas outras redes de TV?
Luiz Galebe: O formato padrão de filiação de redes de TV não se aplica ao Shop Tour, primeiro porque não podemos entrar em rede porque não temos uma rede. Somos um canal pequeno, com poucas retransmissoras.
Depois, o modelo de franquia atende a demanda local em todas as suas necessidades. Temos experiência de sobra para treinarmos os franqueados em todas as áreas, desde os apresentadores até o comercial e produção. Um franqueado sai do zero para a total capacidade de produzir em 90 dias, não tem custo de aquisição e já sai faturando. É muito bom ser franqueado Shop Tour.
Fernando Morgado: Por favor, deixe uma mensagem final aos nossos leitores.
Luiz Galebe: Meu recado para os seus leitores é para que eles tentem criar algo diferente, inovem. É melhor ainda quando alguém disser que é impossível, pois é ali que está a oportunidade, afinal, ninguém fez ainda.
Não tenham medo do fracasso. Só fracassam os que tentam. Quem não tenta nunca acerta. A relação é de 100 para um, portanto, insistam que a oportunidade aparece.
Fiquem sempre perto de gente ética, desapareçam dos que não valem à pena. Alianças ruins geram prejuízos enormes. Mesmo se você for um gênio, sempre tem o gênio do mal por perto para se aproveitar do que somos. É melhor sozinho do que um aliado qualquer.
Por último, Deus é o único que faz justiça nesta vida. Esperem Nele, pois, na hora certa, o sucesso virá.
Por Fernando Morgado – A Rádio Globo fez 65 anos no último dia 2 de dezembro e parece que os presentes não param de chegar: depois de bater recorde histórico de faturamento logo no primeiro mês após o reposicionamento da sua marca — um projeto conduzido pela Tecnopop —, agora o jornal “Meio & Mensagem” anunciou que a Rádio Globo saltou duas posições no ranking “Veículos Mais Admirados”.
Este estudo, desenvolvido pela Troiano, avalia quais são as marcas mais importantes do Brasil dentro de cada uma das principais mídias.
No ranking da mídia rádio, destacou-se também a liderança, pelo décimo ano consecutivo, da CBN, cuja identidade visual também foi trabalhada pela Tecnopop.
Parabéns aos funcionários, comunicadores e gestores da Rádio Globo e de todo o grupo SGR, que provam, mais uma vez, a importância da renovação da mídia rádio tanto para o mercado anunciante quanto para os ouvintes de todo o Brasil.
A ESPM-Rio, Escola Superior de Propaganda e Marketing do Rio de Janeiro, oferece o Curso de Construção e Gestão de Marcas de Rádio e TV. Seu objetivo é ampliar a compreensão do que é marca dentro das diversas especificidades artísticas, comerciais e gerenciais das indústrias de rádio e TV, demonstrando a real importância desse tema na construção de estratégias bem sucedidas para a atração e retenção de audiência e anunciantes.
• A importância do branding para o atual momento do setor de rádio e TV
• Produto ou serviço? O que é efetivamente oferecido por uma emissora de rádio ou TV
• O mix de marketing aplicado à dinâmica de rádio e TV
• Perspectivas e tendências do setor de rádio e TV no Brasil
• Conceitos fundamentais de branding aplicados às especificidaes do setor de rádio e TV
• Gestão do portifólio de marcas de programas e emissoras (extensão de marca e extensão de linha)
• As marcas de rádio e TV dentro do sistema de comunicação 360°
• Construção de valor de marca para emissoras ou programas de rádio e TV
• Aspectos fundamentais para a construção e consolidação da imagem de marca de rádio e TV
• Plano de marca para rádio e TV
• A comunicação do posicionamento (ou reposicionamento) de uma emissora de rádio ou TV
• Gestão dos processos de um projeto de branding de rádio e TV
• Programa de conclusão do curso
Sobre o professor:
Graduado em Design com Habilitação em Comunicação Visual e Ênfase em Marketing pela ESPM/RJ, Fernando Morgado gerencia projetos de branding da agência Tecnopop. Trabalha com gestão de marcas de emissoras de rádio e televisão, tendo atuado no reposicionamento da Rádio Globo, CBN, BEAT98, BHfm e SGR (Sistema Globo de Rádio).
É autor do livro “Televisionado: artigos sobre os principais nomes da TV” (Editora Multifoco, 2009) e responsável pelo site Fernando Morgado Televisionado (televisionado.com), eleito um dos três melhores blogs de comunicação do Brasil pelo júri acadêmico do Prêmio Top Blog.
Fernando Morgado também é palestrante e colaborador do portal “Tele História”. Seus artigos e entrevistas já foram publicados em diversos veículos de comunicação do Rio de Janeiro e São Paulo.
Mais que empresário, Ricardo Benjamín Salinas Pliego é uma das figuras mais presentes na economia e na mídia latino-americana. O tino para os negócios veio de berço, afinal, foram seus familiares que construíram tanto a maior rede varejista do México, a Elektra, quanto a sua maior concorrente histórica, a Salinas & Rocha. Hoje em dia, essas duas empresas fazem parte do mesmo conglomerado comandado por Ricardo Salinas e que, além do comércio, também atua nos setores de financiamento, seguros e previdência, fabricação e venda de carros e motos, telefonia móvel, mídia e entretenimento, respondendo por um faturamento de mais de US$ 4,5 bilhões através do trabalho de aproximadamente 50 mil funcionários em nove países.
O Grupo Salinas chegou ao Brasil em 2008 abrindo lojas da Elektra e agências do Banco Azteca na região nordeste (a partir de Recife/PE). Em maio de 2009, foi anunciado um acordo estratégico entre a TV Azteca, braço midiático de Salinas, e a TV Globo para a produção de novelas no México a partir de textos brasileiros de sucesso. O primeiro deles será “Louco Amor”, novela das 20h escrita por Gilberto Braga em 1983.
Principais marcas do Grupo Salinas
A TV Azteca nasceu em 1993, ano em que o governo mexicano pôs à venda seus canais abertos de TV: o 7 e o 13. Ricardo Salinas liderou um consórcio de investidores que, com um lance de US$ 640 milhões, levou essas duas concessões e, a partir delas, montou uma estrutura que pudesse concorrer com a Televisa: grupo da família Azcárraga que, durante muitas décadas, deteve o monopólio da TV comercial no México através da operação de quatro redes nacionais: 2 (El Canal de las Estrellas), 4, 5 e 9 (Galavisión).
Atualmente, a TV Azteca apresenta-se como um dos dois maiores produtores de conteúdo para TV em espanhol no mundo através da operação de diversos negócios, a começar por suas duas redes nacionais. Enquanto a Azteca 7 tem foco nos jovens-adultos das classes média e alta através de uma programação baseada em seriados, filmes e noticiários, a Azteca 13 apresenta as principais novelas, shows, eventos esportivos e programas jornalísticos com o objetivo de alcançar toda a família.
Além destas duas redes, TV Azteca também opera, desde 2006, o Proyecto 40: um canal UHF na Cidade do México voltado para programas jornalísticos e de debates. Em 2008, o grupo comprou 70% do capital da rede guatemalteca Latitud TV, que hoje opera sob a marca TV Azteca Guatemala.
Nos Estados Unidos, a Azteca America transmite programação em espanhol através de uma rede de 225 emissoras de TV aberta, competindo com gigantes como Telemundo e Univision (saiba mais sobre Univision lendo o artigo exclusivo do blog de Fernando Morgado: “Caso Univision: hispanidade multimídia”). Ainda nos EUA, a TV Azteca também opera o canal por assinatura Azteca México.
Os negócios gerados a partir da televisão aberta também se extendem para a música (Azteca Music e Azteca Conciertos), futebol (com o clube Monarcas Morelia), Internet (Azteca Internet) e TV digital (Azteca Digital e Hi-tv).
Veja abaixo uma entrevista que Ricardo Salinas concedeu ao jornalista Javier Alatorre, apresentador do “Hechos” (principal telejornal da Azteca 13). Nela, o empresário fala da aquisição da rede Latitud TV, na Guatemala, e da chegada do Grupo Salinas ao Brasil (postado por jamendozab)
Em setembro de 2009, Ricardo Salinas colocou a pedra fundamental dos novos estúdios da Azteca Novelas, divisão responsável pela produção de teledramaturgia do Grupo Salinas (postado por gruposalinasweb)
Oprah Winfrey, através do programa de entrevistas que leva o seu nome, revolucionou a programação diurna na TV americana (o chamado daytime) e consolidou-se não apenas como a principal figura da televisão como também a mulher mais poderosa e influente dos Estados Unidos. Das 23 temporadas em que esteve no ar até hoje, 21 ocuparam o primeiro lugar nacional de audiência (um recorde), alcançando uma média semanal de 42 milhões de telespectadores só nos EUA.
Ao mesmo tempo em que a sua popularidade cresceu, Oprah expandiu a presença da sua marca em outras mídias e novas atividades econômicas. A partir do lema “Live your best live” (“Viva sua vida melhor”) e do trabalho da Harpo Productions (empresa de sua propriedade), foram lançados livros, revistas, programas de rádio, portais na Internet e filmes, gerando uma fortuna avaliada em US$ 2,7 bilhões e um amplo arcenal de conteúdos voltados para a melhora da qualidade de vida e da auto-estima do estadunidense em diversos setores: espiritualidade, saúde, moda e estilo, relacionamentos, casa e decoração, alimentação, entre outros.
Na TV, o “The Oprah Winfrey Show” tornou-se um ativo que nenhuma emissora com pretenções em consolidar-se na liderança do seu mercado local pode deixar de ter. Através da CBS Television Distribution, 215 emissoras nos Estados Unidos compram a atração para exibirem aos seus públicos (a partir do regime de syndication, ou seja, produção independente), enquanto 145 países adquirem o programa de Oprah pela CBS Television International (como é o caso, aqui no Brasil, do canal GNT).
Os executivos de todas estas estações ao redor do mundo aguardaram apreensivos o anúncio feito ao vivo por Oprah Winfrey no final da edição do seu show de sexta-feira, 20/11/2009. Naquele momento, a apresentadora oficializou a decisão de retirar sua atual atração do ar quando ela completar a sua 25ª temporada. Com isso, começa, como disse a própria Oprah, uma “contagem regressiva” que culminará com um último programa a ser transmitido no dia 9 de setembro de 2011.
Apesar de Oprah dar como justificativa apenas o fato dela acreditar de que esta era “exatamente a hora certa” de parar, na verdade existe um outro acontecimento importante que influenciou esta decisão: a sociedade que apresentadora fechou em 2008 com a Discovery Communications para o lançamento de uma nova emissora de televisão por assinatura, a OWN – The Oprah Winfrey Network. Não está descartada a possibilidade de Oprah apresentar uma atração em sua própria emissora, mesmo que com outro nome e com um formato menor e diferente. Sua equipe de produção, inclusive, já está trabalhando neste sentido.
Mesmo com previsão de ser lançado somente em janeiro de 2011 (para ocupar o lugar do Discovery Health), o canal OWN já está com uma página na Internet que apresenta os principais conceitos da sua marca, numa prova do extremo cuidado com que este projeto está sendo conduzido.
Tudo começa pelo nome da emissora, que possui um significado bastante interessante. A palavra own, em inglês, quer dizer “próprio”: um termo muito empregado dentro do discurso do canal que se propõe a conectar o telespectador com o “melhor de si mesmo”. Essa conexão se dará, por exemplo, através da apresentação de histórias reais de superação que irão motivar o público em suas próprias transformações pessoais, além de gerar um forte sentimento de reconhecimento (o que produz, num segundo momento, alta fidelização da audiência).
A assinatura visual da emissora investe nos tons claros e cítricos e se adapta de acordo com o contexto, no melhor estilo “avatar”. Independentemente da versão, nota-se que a ideia é valorizar as coisas simples presentes na vida ou no imaginário de qualquer pessoa, como a metade de uma laranja, uma flor ou mesmo o ninho de um pássaro.
Oprah é apresentada como a “força vital” da emissora e, através de uma programação variada e com 24h de duração, irá explorar e compartilhar tudo aquilo que ela mais gosta com o seu público. Além disso, mais que uma “rede de TV”, a OWN é descrita como uma “rede de pessoas”, numa indicação do peso da Internet (em especial das redes sociais) e de outras plataformas de comunicação dentro do plano de atuação desta nova estação.
Vale a pena acessar o site da OWN – The Oprah Winfrey Network para conferir mais sobre o conceito da emissora não somente através dos textos como também do vídeo que está na página inicial. Abaixo, confira o pronunciamento de Oprah feito no encerramento do seu programa de 20/11/2009 (postado por DrudgeReportUSA)
Desde quando ingressou no jornalismo, aos dezessete anos de idade, o sonho de Nelson Hoineff era trabalhar com televisão. Hoje, ele vê seu desejo transformado numa realidade que vai além, inclusive, da tela da TV. Criador de programas consagrados como “Documento Especial” e “Realidade”, além de diretor de grandes produções como “Alô, Alô Terezinha” — documentário lançado recentemente e que conta a história do gênio Abelardo “Chacrinha” Barbosa — e “O Homem pode Voar” — sobre a vida de Santos Dumont —, Hoineff também está à frente do IETV – Instituto de Estudos de Televisão: uma entidade sem fins lucrativos, cujo único objetivo é aprofundar o conhecimento sobre esta mídia, através de ações como a organização do Festival Internacional de Televisão e a publicação dos “Cadernos de Televisão” (revista quadrimestral de estudos avançados de TV).
Esta entrevista foi realizada na sede da sua produtora, a COMALT – Comunicação Alternativa, em dezembro de 2007, por ocasião da estreia da nossa coluna Fernando Morgado Televisionado no portal “Tele História”. Sempre vale a pena reler as palavras de Nelson Hoineff, que, além de ser um dos maiores profissionais de TV do Brasil, é também um dos maiores incentivadores da pesquisa sobre televisão no país.
Fernando Morgado: Qual o balanço que você faz da edição de 2007 do Festival Internacional de Televisão? Nelson Hoineff: O festival, nesses três anos, é uma surpresa permanente. Trouxemos mais de trezentas e cinqüenta horas de programação de quarenta países, pensadores de televisão do mundo inteiro, e duas coisas completamente transformadoras aconteceram: a primeira foi a idéia de fazermos um módulo de pilotos brasileiros. Isso deu uma nova dinâmica ao festival. A segunda coisa é que um desses módulos acabou sendo apresentado pela TVE, fazendo com que a gente tivesse uma audiência que seria inalcançável dentro de uma sala de exibição. O saldo, portanto, é excepcional, e algumas coisas aconteceram por causa disso, por exemplo: o Festival de Televisão de Nova Iorque nos propôs um acordo de parceria pelo qual a mostra de pilotos brasileiros vai ser competitiva e os vencedores estarão no Festival de Nova Iorque e vice-versa. Além disso, a TV Brasil, já de saída, pediu para ampliar a parceria que a TVE já tem com o Festival.
Fernando Morgado: Aproveitando esse assunto, qual a sua opinião sobre esta fase inicial da nova TV Brasil? Nelson Hoineff: Pelo o que eu estou vendo no ar, visivelmente, é que ainda é uma fase experimental, quer dizer, o que eu vi mesmo foi a fusão da programação da TVE do Rio com a Radiobrás e não muita coisa a mais. Eu acho que é importante ter uma televisão pública forte, não sei se é essa televisão, ou outra televisão, mas acho muito importante, num país como o Brasil, ter uma televisão pública forte, que não seja uma televisão estatal, mas que tenha capacidade, inclusive financeira, de se voltar para a experimentação, criação de novos formatos, um diálogo com a produção independente, para a invenção, que a televisão privada, comercial, tem falhado em nos oferecer, até porque há um comprometimento com audiência que as faz, muitas vezes, acreditar que o melhor é nivelar por baixo, o que não é verdade. Então acho que ter uma televisão pública com força para apostar na criação, na diversificação da produção, no desenho de novas formas, de novos modelos de conteúdo, essa televisão, se de tal coisa acontecer, ela tende a oferecer um grande serviço à sociedade brasileira.
Fernando Morgado: Você tem uma experiência grande de trabalho em TVs comerciais. Você acha que alguma dessas televisões conseguiu, em algum momento, se aproximar desse modelo mais razoável de televisão? Nelson Hoineff: Ultimamente, não. Acho que as últimas experiências de inovação em televisão são muito antigas, infelizmente. Você vê experimentos muito bons de Fernando Barbosa Lima, Carlos Alberto Loffler, antes deles, pessoas como Jacy Campos. Era um momento que a televisão era mais pura, mais verdadeira, mais nobre, mais televisão. Agora mesmo eu estou fazendo um filme de longa-metragem sobre o Chacrinha [“Alô, Alô, Terezinha”] e estou já quase no fim, entrando na edição, e eu mergulhei em mais de 200 horas de programação e você vê como uma pessoa completamente politicamente incorreta podia ser tão criativa. Um tipo como o Chacrinha hoje não caberia na televisão brasileira. Chacrinha hoje estaria completamente desempregado. A televisão está muito pasteurizada, carecendo demais de invenção, de criatividade, está num processo psicanalítico de transferência para o espectador, ela trata o espectador, invariavelmente, como um débil mental, com isso ela está prestando um grande desserviço ao veículo. A nobreza intrínseca, a utilização de todas as suas potencialidades, o desenvolvimento de formas originais de conteúdo, de uma sintaxe própria, de modelos narrativos próprios, está escassa. A televisão tem sido vista como um veículo de segunda qualidade, como um importador de modelos de conteúdo estrangeiros, que já não são bons, e um mero exibidor de eventos: Carnaval, futebol… Se nós respeitássemos a televisão um centésimo do que os cineastas respeitam o cinema, do que os poetas respeitam a poesia, os escritores respeitam a literatura, a televisão seria grandiosa.
Fernando Morgado: Você veio da mídia impressa, dos jornais. Como você chegou à televisão? Nelson Hoineff: Eu sempre quis fazer televisão. Em 1967, eu tinha 17 anos e já falava: “tudo o que eu quero fazer na vida é televisão”. E aí eu descobri que existia um festival de cinema amador chamado Festival de Cinema JB/Mesbla, e pensei: “Será que se eu fizer um filme para esse festival, alguém vai me chamar para fazer televisão?”. Aí eu consegui uma câmera emprestada, minha mãe me deu um dinheiro para comprar filme, e entrei no festival, mas não me chamaram naquela época. Até que em 1983, quando eu era correspondente da “Variety” no Brasil, estava sendo montada a TV Manchete e aí dei um jeito de entrevistar o Rubens Furtado e o Zevi Ghivelder, que estavam à frente do projeto. Para minha sorte, os dois acabaram me convidando para ir trabalhar na Manchete, que era exatamente o que eu queria.
Fernando Morgado: Na Manchete, você participou de quais programas?
Nelson Hoineff: No início, eu era responsável pela editoria de cultura. O “Jornal da Manchete”, no começo, era muito grande, tinha uma hora e meia de duração, então nós tiramos a parte de cultura de dentro do jornal e passamos para um programa separado, o “Panorama”. Daí, eu saí por um tempo, fui fazer um curso de especialização em Nova Iorque sobre tecnologia de distribuição, e voltei como diretor do “Jornal da Manchete 2ª Edição” e dos eventos internacionais da Manchete. Quando retornei das Olimpíadas de 88, eu tive um desentendimento com o diretor de jornalismo da época, o Mauro Costa, uma ótima pessoa, e pedi demissão. O Jaquito [Pedro Jack Kapeller, então diretor-superintendente das Empresas Bloch] não aceitou e criou um negócio chamado Núcleo de Novos Projetos, que, na verdade, era eu sozinho. E foi ali que, um dia, me deu o desejo de criar um programa jornalístico que fosse completamente diferente de tudo o que existisse na TV brasileira e internacional. Para apresentar esse programa, que dei o nome de “Documento Especial”, fiz uma coisa que, dita agora, parece um exercício de retórica, mas é a verdade absoluta: peguei uma folha de papel e, num lado, botei tudo o que me incomodava na Manchete: “você não pode botar gente feia”, “você não pode falar em corrupção”, “você não pode botar pobreza”, “você não pode botar violência”… E do outro lado do papel: “botar um programa que fale de corrupção, violência, sexo, tenha gente feia, travesti, gay…”. Todo mundo torceu o nariz lá dentro, menos o Jaquito, que autorizou a produção do piloto, aprovou, e assim lançamos o programa. Na verdade, teve um momento que eu até fiz dois programas: um falso e outro verdadeiro. Um falso para ser aprovado pela direção e, no que a direção aprovasse, eu botava dentro da caixa o verdadeiro… O programa se tornou o maior êxito da Manchete, até que o SBT me chamou, pagando exatamente dez vezes o que eu ganhava e levando toda a equipe, também ganhando muito mais.
Fernando Morgado: Como foi sua experiência de fazer jornalismo no SBT?
Nelson Hoineff: O SBT, onde eu trabalhei quatro anos, é um lugar excepcional no sentido que ele tem um dos pouquíssimos gênios da televisão brasileira, talvez o último gênio vivo da televisão brasileira, que é o Silvio Santos. Eu adoro o SBT!
Fernando Morgado: Depois do SBT, você teve uma experiência na Bandeirantes… Nelson Hoineff: No mesmo dia que eu saí do SBT, eu recebi três convites: um do Alberico Souza Cruz [então diretor de jornalismo da Globo] me chamando, pela quarta vez, para dirigir o “Fantástico”, e pela quarta vez eu recusei. Fui chamado pelo [José Carlos] Martinez, da CNT, e pelo Rubens Furtado, que era diretor da Band. Eu fui para a Band e fiz um programa diário, de 7 às 8 da noite, chamado “Realidade”, que era, vamos dizer assim, um “Fantástico” diário: tinha jornalismo, entretenimento… Um ano depois, fizemos o “Documento Especial” lá, aí já produzido inteiramente pela minha produtora. Comecei a fazer algumas produções para televisão, como “Primeiro Plano”, “Cyberlife”, “Cyberkids”, fizemos o “Antes: Uma Viagem pela Pré-História Brasileira”, o primeiro filme em alta definição no Brasil, comecei a desenvolver um projeto sobre Santos Dumont, além do Instituto de Estudos de Televisão (IETV), que é minha outra filha, de seis anos, que hoje divide meu tempo: eu passo metade do tempo trabalhando para o IETV, e a outra metade para a minha produtora.
Fernando Morgado: Como nasceu o Instituto? Nelson Hoineff: Em meados de 2001, veio me entrevistar um grupo da USP que editava uma revista maravilhosa chamada “Sinopse”. No final, um deles virou pra mim e disse: “Nelson, esse negócio de televisão é incrível: ou a pessoa faz televisão e não pensa televisão, ou ela pensa sobre televisão e não faz televisão. Então, por que a gente não monta um encontro trazendo realizadores de televisão e pensadores de televisão?”. Achei genial e assim nasceu o Encontro Internacional de Televisão, que foi um tremendo sucesso. Em seguida, nós decidimos fazer mais coisas, como Encontro de Roteiristas, Fórum de TV Digital, Seminário Esso-IETV de Telejornalismo…
Fernando Morgado: Para encerrar, uma mensagem final aos nossos leitores. Nelson Hoineff: Minha mensagem é a seguinte: a gente está aqui esse tempo todo conversando sobre televisão em alto nível. Sinto que se nós ficássemos mais quatro horas conversando, teríamos muita coisa a dizer tanto no âmbito do IETV, como no dos programas de televisão… Então isso é, para quem está lendo, um indicador de como se pode e se deve pensar televisão num nível mais elevado e de como isso é gratificante, bom e prazeroso.
Abaixo, veja o trailer do filme “Alô, Alô Terezinha”, lançado pela COMALT e Globo Filmes (postado por Imovision)
Cenas da première do filme “Alô, Alô Terezinha” no Odeon ocorrida durante o Festival o Rio 2009 (postado por festivaldorio09)
Gostaria de agradecer muito a todos que lotaram o auditório da ESPM-Rio na manhã desta quinta-feira e prestigiaram a palestra que apresentei sobre o posicionamento das quatro maiores redes de TV do Brasil e o lançamento do nosso livro “Televisionado: artigos sobre os principais nomes da TV”.
Muito obrigado também por todas as mensagens que recebi pessoalmente e pela Internet (em especial no nosso Twitter@morgadofernando) tanto daqueles que compareceram ao evento quanto dos que não puderam estar presentes mas fizeram questão de deixar o seu recado.
O livro “Televisionado: artigos sobre os principais nomes da TV” está à venda na página da Editora Multifoco.